Em 1985, um grupo de músicos negros do Reino Unido, incluindo nomes como Aswad, Dennis Brown e Janet Kay, gravou uma música beneficente para arrecadar fundos para a Etiópia, então assolada por uma grave fome. No entanto, seus esforços permanecem pouco conhecidos, apesar da importância histórica do evento. A crise etíope dos anos 1980 foi um marco na década, expondo a desigualdade entre nações desenvolvidas e em desenvolvimento, ainda chamadas na época de “Terceiro Mundo”. Embora se acredite que o público britânico só tenha tomado conhecimento da situação por meio de imagens chocantes veiculadas pela BBC, a comunidade rastafári já estava ciente da tragédia antes da cobertura midiática.
Para os rastafáris, a Etiópia era um lar espiritual, um símbolo de resistência contra as injustiças do Ocidente, e muitos mantinham laços com o país antes mesmo de se estabelecerem em Londres. O músico e ativista Leon Leiffer relata que rumores sobre a seca e a fome já circulavam entre a comunidade antes da mídia tradicional noticiar o fato. Essa conexão cultural e religiosa motivou ações solidárias antecipadas, demonstrando como grupos marginalizados podem ter acesso a informações antes do grande público.
A iniciativa dos artistas britânicos, embora pouco divulgada, reflete uma mobilização orgânica e comunitária, destacando o papel de minorias na resposta a crises globais. A falta de reconhecimento desses esforços levanta questões sobre como a história é contada e quem tem voz nela. A música beneficente, assim como a conscientização prévia da comunidade rastafári, revelam uma narrativa alternativa à dominante, mostrando que a solidariedade muitas vezes surge antes dos holofotes.