Historicamente, o autismo foi visto como uma condição predominantemente masculina, levando a subdiagnósticos em meninas. Pesquisas mostram que meninos têm 10 vezes mais chances de serem encaminhados para avaliações, enquanto meninas frequentemente recebem diagnósticos incorretos, como ansiedade social ou transtorno borderline, antes de serem identificadas como autistas. A neurocientista Gina Rippon destaca em seu livro que cerca de 70% dos estudos sobre autismo focaram apenas em homens, perpetuando a invisibilidade das mulheres no espectro.
As diferenças comportamentais entre gêneros contribuem para o problema: meninas tendem a internalizar sintomas, como timidez ou retraimento, enquanto meninos manifestam comportamentos mais disruptivos, que chamam mais atenção. Além disso, muitas meninas autistas aprendem a “mascarar” suas dificuldades sociais desde cedo, adaptando-se para evitar julgamentos. Rippon ressalta que a inclusão de critérios como hipersensibilidade sensorial no manual diagnóstico (DSM-5-TR) pode ajudar a identificar casos precocemente, mas ainda há resistência cultural em reconhecer o autismo fora do estereótipo masculino.
O diagnóstico tardio tem impactos profundos, especialmente para mulheres que passam a vida sem entender suas diferenças. Muitas relatam alívio ao receber o diagnóstico, seguido de frustração por anos de desamparo. Rippon defende maior inclusão de vozes autistas na pesquisa e na prática clínica, além de conscientização sobre as particularidades do autismo em meninas. “O mundo não as acomodou por décadas, mas felizmente isso está mudando”, conclui. Ajustes educacionais, como ambientes menos estimulantes, e abordagens mais empáticas são essenciais para reduzir o sofrimento dessas jovens.