No século 19, a limpeza pública na cidade de São Paulo era realizada por africanos livres, homens e mulheres que, apesar de teoricamente libertos pela proibição do tráfico de escravizados em 1831, permaneciam sob tutela do Estado. Eles eram obrigados a prestar serviços públicos por até 14 anos, trabalhando em atividades como a limpeza urbana, atendimento em hospitais e manutenção de prisões. Apesar da condição jurídica de livres, suas condições de vida e trabalho eram extremamente precárias, semelhantes à escravidão, com moradias degradadas e alimentação insuficiente.
A primeira tentativa de usar africanos livres para a limpeza urbana ocorreu em 1854, mas só foi implementada em 1858, após aprovação da Câmara Municipal. Eles trabalhavam puxando carroças com rodas de ferro, em condições insalubres, e moravam nos locais de trabalho, como o Jardim Público (atual Parque da Luz), onde as instalações estavam em ruínas. Pesquisas históricas mostram que o Estado brasileiro, mesmo após a proibição do tráfico, mantinha uma estrutura que perpetuava a exploração desses indivíduos, tratando sua liberdade como condicional.
Mesmo após a abolição da escravidão em 1888, as condições dos trabalhadores da limpeza pública continuaram precárias, como revelou um estudo sociológico de 1938. A pesquisa apontou moradias superlotadas, falta de saneamento básico e baixos índices de alfabetização entre esses funcionários, contrastando com a média da cidade. Esses dados destacam como a herança da escravidão e a marginalização persistiram por décadas, moldando as desigualdades sociais em São Paulo.